Sobrevivencialismo cresce no Brasil impulsionado por incertezas globais e busca por autossuficiência
Crise climática, pandemias, falta de suprimentos, colapso social. Emergências como essas preocupam cada vez mais brasileiros, que buscam no sobrevivencialismo um estilo de vida para estarem preparados para o pior. Esse movimento, já consolidado nos Estados Unidos, ganha força no Brasil com adeptos ensinando estratégias de sobrevivência nas redes sociais, acumulando milhões de seguidores.
O conceito vai além de catástrofes globais, abrangendo também o “apocalipse pessoal”, como a perda de emprego ou de suporte familiar. A busca por autossuficiência se tornou um meio de resistência diante de imprevistos, transformando a preparação para emergências em uma prioridade.
Essa preparação se manifesta de diversas formas, desde a construção de bunkers e a criação de sistemas de energia solar até o armazenamento de alimentos e o desenvolvimento de habilidades práticas. Conforme informações divulgadas pelo blog e canal de YouTube Guia do Sobrevivente, essa abordagem visa garantir segurança e autonomia em cenários de instabilidade.
Do desemprego à autossuficiência: A história do Guia do Sobrevivente
Mayra Andrade e seu marido, Mário, conhecido como Batata, encontraram no sobrevivencialismo uma resposta à instabilidade após um período de desemprego e problemas de saúde. Inicialmente cética, Mayra hoje celebra a decisão de adotar esse estilo de vida, que se tornou referência para mais de 1 milhão de seguidores no canal Guia do Sobrevivente.
A casa do casal em Monte Alto (SP) é um exemplo de autossuficiência, com sistema de captação de água e 75% de sua energia proveniente do sol, com o objetivo de atingir 100%. Eles cultivam alimentos e criam animais como galinhas, patos, coelhos e peixes, armazenando suprimentos para até três anos.
“Temos o suficiente para três anos, com comidas variadas. Boas refeições diárias para quatro pessoas”, afirma Batata. O destaque é o bunker subterrâneo de 92 metros quadrados, construído com blindagem reforçada e proteção contra radiação, projetado como um modelo ideal de segurança.
Sobrevivencialismo como ato de amor e proteção familiar
Em Antônia Carlos (SC), Julio Lobo e Tiago Azzolini, do canal Sobrevivencialismo, com 2 milhões de seguidores, compartilham a construção de um rancho para nove pessoas. Para eles, o movimento não é movido pelo medo, mas sim pelo amor e pelo desejo de proteger seus entes queridos, desenvolvendo habilidades que os tornam mais capazes.
“O sonho utópico é fechar a porteira e não precisar de nada do lado de lá. Não é por raiva do mundo. Não é movido por medo, mas por amor. Queremos proteger as pessoas que gostamos”, explica Julio Lobo, psicólogo de profissão.
A dupla se prepara para emergências consideradas mais factíveis, como revoltas sociais, greves de caminhoneiros ou consequências da crise climática. “Sempre baseado em um histórico. Não temos essa piração de que a Terceira Guerra Mundial vai cair no nosso pátio”, ressalta Lobo, enfatizando que o objetivo é mitigar os impactos de crises cotidianas, como o aumento de preços.
Adaptação urbana e a mochila de sobrevivência
Raphael Cozzi, de 39 anos, um dos fundadores da rede Preppers Brasil, com cerca de 3 mil membros, adota uma abordagem de sobrevivencialismo adaptada ao ambiente urbano do Rio de Janeiro. Ele destaca a importância da “mochila de sobrevivência” para emergências imediatas.
“O primeiro passo quando você entra nesse mundo é montar a sua mochila de sobrevivência”, instrui Cozzi, que mantém uma mochila no carro com itens essenciais como comida enlatada, roupas, barraca, lanterna, bússola, máscara de gás e canivete.
A preparação urbana envolve identificar perigos imediatos como violência, alagamentos e inundações. Cozzi também menciona a necessidade de mapear rotas de fuga e considerar a autodefesa como última camada de proteção, associando seu interesse a um incêndio que sua casa sofreu na infância.
Autossuficiência como resgate de valores ancestrais
Julio Lobo relata uma insatisfação com a dependência dos sistemas urbanos, comparando a situação atual com a época de seus avós, onde ter uma despensa em casa era comum. “Quando me deparei com o cenário mais urbano, sempre me incomodava que tudo o que eu tenho depende de alguém me entregar”, comenta.
Ele defende que o sobrevivencialismo não se trata de viver em vulnerabilidade, mas sim de desenvolver resiliência e habilidades para lidar com imprevistos. “Eu não consigo viver uma vida vulnerável assim”, afirma.
Tiago Azzolini complementa que a busca por essa independência energética, hídrica e alimentar se alinha a um desejo de viver uma vida mais plena e preparada. “Temos uma boa vida e consequentemente a gente se prepara”, conclui.